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Diário de Pernambuco entrevista o professor e coordenador do grupo de estudos Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Pará (UFPA), José Almir Rodrigues.


"Os dois (água e energia) estão muito ligados. Na prática, no dia a dia, nem percebemos isso"


Professor e coordenador do grupo de estudos Hidráulica e Saneamento da Universidade Federal do Pará (UFPA), José Almir Rodrigues Pereira lamenta falta de informação. Confira entrevista:

José Almir critica a separação que o governo faz no planejamento dos dois setores. "São Paulo passou por esse problema: Estão tendo que trazer água de mais de 100 quilômetros". Foto: Acervo pessoal

O senhor lançou o livro Abastecimento de água: Informação para eficiência hidroenergética (Editora Universitária da UFPB, 2014), escrito em parceria com a professora Marise Teles Conduru, também da UFPA. Qual é a proposta dessa obra?

Na verdade, o livro parte de uma constatação: a informação é falha. Pela falta de informação, os problemas acabam se agravando no setor de energia elétrica, no qual podemos ver até o risco de apagão atual, e no abastecimento de água, com o problema de racionamento, da falta d'água e até da paralisação total do abastecimento. Fizemos uma relação entre energia, abastecimento de água e informação. é a base desse livro.

O desperdício de água pode levar a um consumo excessivo de energia elétrica? Existe essa relação direta?

É só a gente procurar analisar o sistema de abastecimento de água. Temos sobretudo manancial subterrâneo e superficial (rios, lagos) como fontes para retirar água. Para isso, precisa-se de bombeamento, o que exige energia elétrica. Quanto maior o consumo de energia, mais essa água vai passar pelas diversas etapas do sistema. No tratamento, também tem bombeamento e a energia utilizada nos equipamentos do tratamento. A água tratada vai ser armazenada e posteriormente bombeada pra locais mais distantes. Na maioria dos lugares, vai para setores de distribuição, reservatórios, de onde é bombeada para um reservatório elevado e distribuído na rede, para chegar até a casa da gente. Ou seja, o mesmo volume de água foi bombeado três, quatro vezes. Na informação oficial, não é contabilizado esse tipo de energia agregada. Nesse ciclo todo, não se agrega energia. Quanto mais se consome, mais energia é retirada.

Especialistas, tradicionalmente, afirmam que a geração de energia por hidrelétricas não provoca um consumo propriamente dito da água, exceto nos casos de evaporação. O que o senhor pensa sobre isso? De fato, é uma fonte com pouca pegada hídrica?

A geração de hidrelétrica é feita em turbina. Para isso, tem que haver um reservatório e uma queda suficiente para mover a turbina e transformar a energia da água em uma energia mecânica e, em seguida, na elétrica. Então, logicamente, para gerar mais energia, vai se precisar de maior volume de reservação e uma determinada altura de queda. Os dois (água e energia) estão muito ligados. Na prática, no dia a dia, nem percebemos isso. E pior: o planejamento governamental é feito separadamente, quando um setor deveria estar olhando o outro. Aqui no Pará, está se construindo a hidrelétrica de Belo Monte, mas será necessário retirar água desse rio para abastecer Altamira e cidades próximas. Esse estudo integrado precisa ser feito. São Paulo passou por esse problema: estão tendo que trazer água de mais de 100 quilômetros. Imagina o custo de energia para conduzir essa água. O planejamento tem que ser de forma integrada e, para fazer a gestão, é preciso dispor de informação de qualidade. Não podemos ter tanta perda nos sistemas quanto atualmente. O principal problema, para mim, é na hora que a gente está trabalhando pensando só na geração de energia. Não se pensa nos outros usos. Temos abastecimento, irrigação, até os esportes aquáticos. As hidrelétricas, na minha opinião, precisam ser planejadas, em um país que precisa explorar suas fontes naturais. Mas o que a gente percebe é que a federação impõe e os estados da região não têm força para, pelo menos, garantir uma contrapartida para as populações, para melhorar a qualidade de vida. E aí, o que acontece? Temos bolsões de pobreza em comunidades que vivem próximas de uma geração de energia, mas sem água de qualidade, sem coleta de resíduos sólidos, sem hospital... É uma realidade do Norte e, em alguns casos, do Nordeste. Outra coisa é que estamos na Amazônia, um patrimônio que pode ser explorado, mas que também deve ser preservado. O binômio tem que ser conjugado. Se não, daqui a pouco, não vamos ter toda essa quantidade de água atual.

Hidrelétrica de Belo Monte, segundo especialista, ainda precisa de um estudo integrado. Para ele, o principal problema é que só se pensa na geração de energia e não nos outros usos. Foto: Regina Santos/ Norte Energia

Então, a hidrelétrica ainda é a melhor opção para o país? Ou deveria ser ampliado o espaço de outras fontes de energia?

Eu digo que todas as fontes de energia que utilizem os recursos naturais [deveriam ser valorizadas]. Tem a hidrelétrica, mas também precisamos explorar a eólica e principalmente a energia solar, que usamos muito pouco. Por falta de planejamento, estamos usando termelétricas... Para mudar essa matriz, temos que explorar energia solar e eólica e, ainda, a energia de biomassa. É incompatível, hoje, estarmos queimando óleo diesel pra gerar energia elétrica, ainda mais com essa crise da Petrobras. Isso é efeito da falta de integração das políticas públicas. Estamos usando as termelétricas para compensar a ausência de investimentos em energia natural. São as incoerências da gestão, do planejamento.

Mas, sob o ponto de vista da pegada hídrica, a bioenergia não exige mais do que outras fontes?

A energia de biomassa exige mais, realmente. Temos muita água na amazônia, onde há alto potencial de geração de energia por hidrelétrica. Em Pernambuco, porém, existe um potencial grande para produzir a partir da cana de açúcar. Seria interessante que o Brasil fosse pensado de acordo com as peculiaridades, para um estado acabar ajudando o outro. No final, seríamos fortes na geração de energia de baixo custo. Não tenho como dizer o custo da energia por biomassa, pois depende de uma série de fatores, desde o ponto onde está localizado, a questão do transporte... Estudos têm que ser feitos para estudar a viabilidade técnica, econômica e ambiental dessas soluções. Não podemos nos dar ao luxo de, no século 21, usar termelétricas, uma fonte de energia muito cara, que o consumidor está pagando. Se cada local do país tivesse usando suas fontes naturais de forma adequada, com certeza, a situação seria outra.

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